17 de março de 2006

Mais uma lista de melhores de 2005

Deus! Perdoai os que embaçam na publicação de textos para este blog. E perdoai aqueles que escrevem listas de melhores discos do ano. Para que servem estas listas de melhores discos do ano se não para podermos discordar da ausência de nossos preferidos ou a presença de bandas não tão preferidas?
Acontece que o cara esperto que curte música sabe como utilizar este tipo de lista. Depois de reclamar e xingar muito, ele vai atrás daquele disco que nunca ouviu falar e conferir se o disco presta. Mas cada um com sua opinião.
Não escutei tudo que foi lançado em 2005 no mundo rock/pop e nem pretendo, mas influenciado por um amigo que me pediu uma lista dos dez melhores de 2005 para escrever em seu blog, vou aproveitar e massagear meu ego colocando aqui a minha lista de melhores discos de 2005, em ordem alfabética.

Art Brut
Bang Bang Rock And Roll
O punk e o post-punk da década de 70 e do início de 80 imortalizado por bandas como Vibrators, Damned e The Fall. O sotaque inglês é fenomenal, a faixa My Little Brother tem uma parte que é assim: "My little brother just discovered rock'n'roll, there's a noise in his head and he's out of control".

Bloc Party
Silent Alarm
Influências do post-punk, mas com uma levada mais new wave e dançante, sem deixar o punk de lado, sem antes não colocar uma dose de personalidade. Bateria e baixo comandando o ritmo e abrindo caminho para as guitarras fazerem seu papel, as vezes melancólico, as vezes cheio de swing.

Clap Your Hands Say Yeah
Clap Your Hands Say Yeah
O vocalista tem o mesmo timbre de voz de David Byrne do Talking Heads, mas canta de um jeito um tanto esquisito. E o legal é perceber que sua voz encaixa perfeitamente ao ótimo som cheio de camadas sonoras do restante da banda.


Epoxies
Stop The Future
Lembranças. Epoxies me faz lembrar a seminal banda punk X-Ray Spex, só que com um sintetizador no lugar do saxofone. O disco inteiro é uma festa. O poderoso vocal de Roxy Epoxy traz a essencia e a energia de uma Siouxsie. Uma banda que poderia ter surgido em 77 abrindo shows para o Blondie sem fazer feio.

Heartless Bastards
Stairs And Elevators
A voz de Erika, a vocalista, é uma pedra crua, garageira e preciosa que, junto com o restante dos Bastards, me fizeram voltar a acreditar na simplicidade do rockão de garagem. Quem um dia lembra de Mark Lanegan e seu Screaming Trees, sabe do que estou falando. A voz forte hipnotiza enquanto a simplicidade do melhor do rock cru, sem frescuras, nos faz imaginar "essa banda ao vivo deve arrebentar".

The King Khan & BBQ Show
The King Khan & BBQ Show
BBQ toca bateria, guitarra, canta, tudo ao mesmo tempo. King Khan é o indiano maluco que toca guitarra, canta, dança, tudo ao mesmo tempo. Banda de duas pessoas tem de monte, mas banda de duas pessoas que faz o autêntico rock'n'roll ser mais barulhento e mais garageiro só tem o King Khan & BBQ Show.

Ladytron
Witching Hour
A primeira coisa que pensei ao ouvir Witching Hour foi como tudo funciona tão bem. A segunda foi como todas as canções deste disco são lindas e possuem uma sonoridade agradável para qualquer momento do dia e da noite. Um electro-rock denso, dark, cheio de sensações retrô saídas do forno.

Sleater-Kinney
The Woods
Guitarras super pesadas, melodias nervosas, gritos enfurecidos, canções que não são pra qualquer ouvido. As meninas voltaram com tudo, nada de melodias fáceis. O som do Sleater-Kinney arranha e incomoda como os bons discos de rock precisam ser.

The Soviettes
III
Soviettes é uma banda que lembra em alguns momentos o punk rock feito no início dos anos 90 pela banda Greenday, mas que tem aquela identidade própria que foge fácil do estigma "mais uma banda de punk rock". Os três acordes, a energia e a forma de cantar em canções punk rock com aquele algo mais, a atitude e a diversão.

Wolf Parade
Apologies To the Queen Mary
Algumas canções me fizeram lembrar Black Francis e o seu Pixies. Outras me fizeram lembrar Arcade Fire, graças à grande quantidade de camadas sonoras e seus instrumentos de cordas, percussão, os backing vocals, a alegria misturada com a melancolia. Pixies e Arcade Fire. Tá esperando o que pra escutar Wolf Parade?

23 de fevereiro de 2006

Contradições

Para contradizer o texto anterior e evitar que este blog fique sem nenhuma postagem no mês de fevereiro (que horror, esses meus amigos me decepcionam!) segue uma listinha dos shows que mais doeram perder:

- The Cure Hollywood Rock, 21/01/1996 - por razões que desconheço, preferi ver os shows do dia 20.
- Belle and Sebastian último Free Jazz, 2001 - não consegui comprar ingresso, eles se esgotaram em 2 dias.
- Pixies CPF 2004 - tudo culpa do festival que não soube organizar a venda dos ingressos pela internet, quando acertaram a situação, fiquei com raiva e não comprei.
- David Bowie Close up Planet, 1997 - não tinha companhia...
- U2 turnê Vertigo, 2006 - preferi não ir porque não estava animada, mas depois que ouvi dizer que foi melhor que 1998...

Tem mais, com certeza, e não os coloquei, necessariamente, na ordem de dor.Mas não tiraria o Cure do topo da lista.

17 de janeiro de 2006

Listas

Para quebrar o protocolo, se é que há algum neste blog que é, ás vezes, uma esbórnia porque podemos falar de qualquer coisa, apesar de sermos monotemáticos e preferirmos sempre a música. O primeiro post de 2006 é a tentativa de se fazer uma lista que não é exatamente sobre os melhores de 2005.

Descobri que não sou muito boa para fazer listas. Tem gente que faz listas das melhores músicas e discos do ano, da última década, de todos os tempos...eu nem sequer consigo dizer quais são os melhores discos dos Beatles, apesar de adorar o Sgt. Peppers, Rubber Soul e Revolver. Não consigo formar uma opinião sobre Kid A e Amnesiac do Radiohead, ou de qual é a minha banda preferida. Na verdade, eu deveria saber essas coisas (e já estou remediando isso), afinal, é a área que mais me interessa na vida e são duas bandas de que gosto muito, sem falar na importância notória delas.
Engraçado que foi o Death and Dethroned disco do Jesus and Mary Chain que me despertou essas conclusões brilhantes que muito provavelmente não me levarão a lugar nenhum. No fim, mais importante do que conhecer música e estar informada sobre tudo o que está rolando de legal ou de meia boca no meio musical é saber que importância ela tem para a vida.
Eu não sei se saberia falar da minha vida sem relacionar os momentos mais importantes com aquilo que ouço. Neste momento, Never saw it coming, sétima música de Death and Dethroned embala a dúvida sobre se continuarei trabalhando ou se terei de me retirar.
Aliás, devia ser proibido fazer música tristinha assim. Músicas que falam de amor, de histórias mal resolvidas, com esse vocalzinho aparentemente blasé, guitarras mais calmas e acho até que mais tristes em relação aos discos mais revoltadinhos do Jesus. Para piorar tem Sometimes Always com a Hope Sandoval que aparece para fazer o duelo da mulher contra o homem que a deixou e resolveu voltar...
Não sei fazer listas, mas acho que sei como a música conta histórias de vida, de momentos pessoais e até sociais. Tudo isso piora a situação de pessoas que tem memória afetiva boa demais, como eu.
Conheço pessoas que ouvem Cocteau Twins e ficam tristes, não é o meu caso. Conheço gente que chora ouvindo There´s a light that never goes out do Smiths, entre as quais me incluo. Outros escutam hardcore quando estão revoltados, este momento,para mim, é propício para ouvir a Courtney Love berrando em Violet ou começar a berrar junto com o Frank Black em qualquer música do Pixies (menos Here comes your man e La la love you).
Seymour Stein, do Belle and Sebastian é perfeita para me emocionar sem ficar triste. Depois de assistir Lost in Traslation, Just like honey do Jesus and Mary Chain começou a fazer parte deste time. Outra que é uma artilheira de longa data é Pictures of you, do sempre querido The Cure - banda que ainda não tive o prazer de ver ao vivo e uma das poucas que gostaria de estar na primeira fila aos pés de Robert Smith! (nossa, peguei pesado agora...) Alma Matters do Morrissey me arranca lágrimas, por que ele tem de cantar daquele jeito? Aliás não à toa o Morrissey não tem fãs e sim devotos, seguidores.
Todo mundo deve ter uma música que serve de cutucão. Aquela que dá um pedala na gente como um amigo de verdade faria quando a gente fica se achando a pior pessoa do mundo. A minha? If you want sing out, sing out do Cat Stevens que já chamei de mantra em um texto que escrevi em algum lugar. O cara conseguiu fazer uma letra otimista sem ser ridícula, completamente possível de se clocar em prática na vida e que de certa forma invoca a liberdade. Aliás, percebi que as músicas dele ficam mais fortes ainda quando as ouvimos assistindo Harold and Maude (Ensina-me a viver). A trilha sonora é inteira de músicas do cara que se converteu ao islamismo, depois de quase morrer e funcionam como um terceiro personagem da história.
Mas acho que o cara que tem o talento de me provocar quase todos os sentimentos é Mr. Nick Cave. Fico triste, choro, me emociono, me revolto... Lembro-me muito bem de quando ouvi The Boatman´s Call numa tarde fria e nublada de inverno ...essa é uma das lembranças musicais mais tristes que já tive e não tinha motivos aparentes para ficar triste.
Migrando um pouco para discos. Não posso deixar de citar dois nacionais, que são lindos, emocionantes, me arrancam lágrimas, sorrisos e são trilha sonora de uma história ótima que vivo há seis anos.Os discos: Amanhã é tarde do Fellini, que tenho autografado pelo Cadão Volpato e A vida é doce, do indefectível Lobão. E já que citei minha história pessoal faço logo o serviço completo, não posso esquecer o disco que me fez conhecer meu namorado, o blue álbum do Weezer.
Ah, sim tem músicas que gosto de ouvir quando estou com meus amigos em baladinhas que vão de New Order a Primal Scream. Fora as que uma das minhas turmas tocam no violão. Esse repertório é mais diverso, cantamos tanto Sit down do James como uma do Tim Maia que não lembro o nome.
São milhares de músicas.Milhares de momentos que não teriam a mesma graça sem trilha sonora. Muita coisa bacana que eu amo muito deixou de entrar aqui, se eu fosse continuar o texto viraria um tratado e como eu disse não sei fazer listas, sei narrar momentos e relacioná-los com os sons.

26 de dezembro de 2005

Claro que é Lama

Com os sapatos enlameados. Foi assim que entramos no local do festival Claro que é Rock, após pararmos no estacionamento oficial do evento, um morro sem iluminação onde carros atolavam, pessoas escorregavam e literalmente enfiavam o pé na lama. Por R$15 queríamos o que? Um estacionamento de fácil acesso, pavimentado e bem iluminado? A "odisséia" que vivi antes e depois do show por causa do estacionamento foi algo tão inusitado que era impossível ficar indignado. É ligar o botão "foda-se" e aproveitar. Great shows ahead!

o senhor simpatia wayne coyne, do flaming lipsPor motivos que prefiro omitir e que foram rapidamente sanados através da ação de um bastão de baseball atingindo um crânio desprovido de inteligência, cheguei no meio do show do Flaming Lips. Sim, eu havia "estudado" o setlist do Flaming Lips pela internet, já sabia que a terceira música era a cover de Bohemian Rhapsody do Queen e que o gênio por trás das composições da banda, Wayne Coyne, desfila por sobre a platéia dentro de uma bolha de ar. Sim, não vi nada disto. Do menos, o pior. Consegui pegar a linda Do You Realize?, o hit She Don't Use Jelly e a maluca viagem de Yoshimi Battles The Pink Robots. Com o palco cheio de adultos fantasiados de bichos coloridos, Wayne, com toda sua simpatia, chama o tempo todo o público para entrar na festa pscicodélica que é o show do Flaming Lips. Você não conhece a banda, nunca ouviu suas músicas, mas o show serve pra você também. O show do Flaming Lips não é um momento em que eles estão ali apenas para apresentar suas músicas. É um show de rock, com cara de festa, onde o público presente, mesmo não conhecendo absolutamente nada da banda, adorou os anfitriões e acabou se divertindo. Pouco, pois o show foi curto.

Uma mijada histórica dentro de um banheiro químico fedorento. Isto foi o que aconteceu entre o show do Flaming Lips e o do Iggy and The Stooges. Vocês acham que iam dormir sem esta?

a divindade iggy popIggy Pop. Influenciou tanta gente com suas performances ao vivo e com sua música que eu ainda não estava pronto para o que estava por vir. Tanto é que o show começou e eu não sabia direito onde ficar para assistir tudo aquilo. Iggy e os Stooges remanescentes me lembraram do por que cheguei a usar a cara de Iggy em um trabalho de calcografia na faculdade. I Wanna Be your Dog, 1969, No Fun, Real Cool Time, Funhouse. Só estas seminais canções de mais de trinta anos atrás já valeriam o show, mas pagamos pra ver mesmo é Iggy e sua dança, seus saltos, suas performances. A energia da banda é toda catalisada em Iggy e posta pra fora, para a platéia, que retribui subindo no palco, dançando, abraçando e cantando ao lado do mestre, da iguana do rock, no momento mais rock'n'roll do dia. Nada como um show proto-punk para desintegrar de nossas mentes uma festa pscicodélica. Iggy e os Stooges no final da década de 60 mostraram que rock'n'roll é destruição, é dançar, se jogar, gritar. Iggy, trinta e cinco anos depois, continua a nos ensinar tudo isso, ali, na nossa frente.

a senhora kin gordon do sonic youthSai o cru e destruidor e entra a banda que foi capaz de reinventar, através de guitarras distorcidas, efeitos e desafinações, a (des)construção do rock no início da década de 80. Meu primeiro show do Sonic Youth, uma de minhas bandas favoritas de todos os tempos. A banda não se importou com o fato de que era apenas a segunda vez que eles vinham ao Brasil em mais de vinte anos de estrada. Em outras palavras, focaram seu show em músicas do disco novo, de 2004, Sonic Nurse. Pouca gente escutou este disco e hits esperados como Diamond Sea e Sugar Kane foram ignorados. A banda focou toda sua energia nas guitarras e nas longas distorções e experimentações, deixando pouco espaço para o rock'n'roll. O pouco convencional tomou conta, mesmo quando resolveram tocar alguns de seus antigos clássicos, como Schizofrenia e Teenage Riot. Iggy não deixou pedra sobre pedra, o Sonic fazia apenas vibrar as pedras. O ponto alto do show foi quando a cinquentona Kin Gordon assumiu os vocais, cantou e dançou na frente da platéia, mostrando simpatia no único momento de interação com público. O fato é que depois de dois shows onde a platéia participou ativamente, seja dançando, cantando ou se deslumbrando, assistir ao show do Sonic Youth naquele momento foi como ir para o lounge, sentar no sofá e tomar uma coca-cola gelada.

trent reznor emocionou este que escreveTrent Reznor, o demente por trás do NIN, seria o próximo. O último show da noite era o que eu menos esperava, apesar de já ter adorado a banda e escutado seus discos exaustivamente. Errei deliciosamente em não esperar nada. Foi um show violento e agressivo, graças a maioria das canções do NIN, que extrapolam ao vivo o seu peso e agressividade, tanto na tríade guitarra-baixo-bateria quanto nas letras. Foi um show belo e introspectivo, graças a performance de Reznor que parece viver intensamente as letras ao cantar, em especial no momento mais calmo do show ao interpretar a canção Hurt que, segundo Johnny Cash, é a mais verdadeira canção anti-drogas já composta. Vai ser difícil esquecer as esculturas verticais que mudam de cor no meio do palco, as luzes e os lasers que contracenavam com a escuridão, com a platéia, com as músicas e com a silhueta dos integrantes da banda. O NIN fechou o festival como deveria, apresentando o show com o visual mais legal que eu já tive a oportunidade de assistir ao vivo.

Fim do festival, de volta pro carro, subir o morro, pescoço dolorido, ser os últimos a sair do estacionamento, chegar em casa às 5 e meia da manhã, um sorriso enorme de satisfação rasgando o rosto. Que bom seria se tivéssemos mais festivais como este por aqui.

17 de dezembro de 2005

O dia em que São Paulo foi Seattle

Hoje faz duas semanas que aconteceram os shows do Pearl Jam,em São Paulo. Ok, passou tempo demais, mas algumas coisas mesmo com atraso não devem ser deixadas para trás.
Dia 02 de dezembro foi o dia que São Paulo se transformou em Seattle: no tempo (céu nublado, chuva fina o dia todo), no modo de vestir já que muita gente se reencontrou com as velhas camisas de flanela que há muito tempo estavam esquecidas em algum lugar do guarda-roupa e na música; show do Pearl Jam.
Fazia mais de nove anos que eu estivera no Pacaembu, vendo shows que hoje não fazem mais nenhum sentido para mim.Mesmo assim consegui me lembrar daquela mesma movimentação, daquela quantidade fantástica de pessoas indo em busca da mesma coisa que havia visto anos antes.
Desci a rua lateral do estádio com esperanças de ver Mark Arm berrando no palco com seus companheiros do Mudhoney. Cheguei às 18h40 e estranhei de ver o palco vazio. Quando encontrei um lugar mais ou menos para ficar comecei a perguntar ansiosa para meus companheiros: cacete, cadê o Mudhoney?.
Os minutos passaram, a arquibancada começou uma hola que durante um tempo animou a multidão.Enquanto isso eu continuava intrigada com o pensamento será que cortaram o Mudhoney na última hora?, depois descobri que era mais ou menos que tinha acontecido.
Às 19h30,britanicamente, conseguia-se ouvir as primeiras notas de Go. Sim, o sonho de muitos que estavam ali estava virando realidade: Eddie Vedder, Stone Gossard,Jeff Ament, Mike Mc Cread e Matt Cameron (conferir se é ele mesmo) estavam no palco básico do Pacaembu.Básico porque não havia nada além de uma iluminação comum.
Go puxou uma verdadeira enxurrada de músicas que os fãs queriam ouvir. Músicas muito conhecidas para quem conhece Pearl Jam: Hail Hail ,Animal,Better Man, Corduroy,Do the evolution,Last kiss, Given to fly. Essas foram um aperitivo para quem estava ansioso, à espera das seis músicas do Ten,primeiro disco da banda, que foram tocadas no show de Curitiba. A cada cidade, aliás a cada dia o set list mudava. Even flow, tocada mais no início do show foi a primeira a puxar as outras:Porch, Once, Alive, Black e Jeremy.
Mas tudo isso foi estupidamente prejudicado pela péssima qualidade de som que de acordo com um amigo era um som de Tom Brasil Nações Unidas num lugar 10 vezes maior. De onde eu estava ouvia-se duas coisas: a voz do Eddie Vedder e alguma coisa que parecia uma vibração de baixo e bateria juntos, só não se sabia o que era o que. Isso melhorou um pouquinho na segunda hora de show, mas mesmo assim tinha músicas que demorei tipo uns 30 segundos para reconhecer (bizarro!).
Se o som estivesse bom eu não me importaria com o fato de ter ficado num lugar de onde não se via quase nada. Contentei-me em olhar para o telão, que também foi colocado numa altura ridícula, e contei com meu irmão que me ergueu umas 3 vezes para ver o palco.
Eddie Vedder não decepcionou: falou português em vários momentos, apesar de não se entender muito o que ele dizia o esforço deu chame às tentativas. Eddie está com o mesmo cabelo de 13 anos atrás, faz a mesma cara de psico enquanto canta, a diferença é a barba e 13 anos a mais na idade.
Um momento que eu não esperava foi a homenagem ao Johny Ramone. Vedder apareceu no palco sentado num banquinho empunhando um violão e dizendo em português que iria tocar uma música (Man of the hour) para um amigo de quem ele sentia muita saudade. O público respondeu a frase com um sonoro Hey, ho! Let´s go. Na seqüência veio a cover de I believe in miracles, que em Porto Alegre rolou com participação do Mark Ramone.
Apesar do som horrível, do palco que eu não conseguia ver, dos gigantes que sempre paravam na minha frente eu consegui me emocionar em 3 momentos: quando ouvi as primeiras notas de Given to fly, depois em Alive, música que a galera cantou quase em unísono e mais tarde em Black quando eu ouvi as palmas mais cadenciadas e unidas da minha vida. Dava para ouvir algo que se traduzia como um tcha contínuo que não me lembro quando parou.
Jeremy foi tocada quase inteira com os holofotes do estádio ligados. Sinal de que tudo seria pontualíssimo do início ao fim. Deu para ouvir Eddie Vedder dizer que não demoraria outros 15 anos para voltar ao Brasil.
Abstraindo a historinha que tenho com a banda concluo:
1º A voz dos moradores do Pacaembu ganhou disparado dos fãs do Pearl Jam que quase imploraram para a realização do show. O show aconteceu, mas com uma qualidade de som pífia, coisa que o público que pagou 120 pila + taxa de conveniência que a ticket mercenária master cobrou ,não merecia.
2º O Pacaembu é terrível para shows e eu não me lembrava mais disso.Não sei se repetiria a dose.
3º Saí pensando que teria sido mais interessante, cômodo e barato se eu tivesse ficado na arquibancada. Realmente os fãs de rock são mutantes. As pessoas vão mais bonitas a shows hoje do que iam há 10 anos.
4º Droga, perdi o Mudhoney! E não foi por atraso meu. Encontrei uma amiga que me contou que a banda tocou meia hora, das 18h às 18h30, uma hora antes do previsto e divulgado.
5º Não consegui manter a abstração até o fim e vou dizer que apesar de tudo de ruim que citei sou doente, me divirto em shows. Foi bom ver a banda do início da minha adolescência.

16 de dezembro de 2005

Shadow of The Colossus

Videogame é videogame, arte é arte, sempre foi assim. Pelo menos até Shadow of The Colossus ter sido lançado para PlayStation 2.


:: Complexo em toda sua simplicidade

É impressionante como um jogo tão simples pode ser tão complexo, lindo e marcante. Um jogo convencional dá a impressão de ter sido criado a partir de uma boa idéia que, para ser mais viável comercialmente, acaba sendo inundada por detalhes, tramas paralelas, histórias que se cruzam, reviravoltas e tudo mais. Aparentemente, tudo que puder complicar será bem vindo. Shadow of The Colossus é tão simples que a impressão que se tem é que o diretor Fumito Ueda teve a idéia sozinho, num quarto escuro, antes de dormir e pensou: "Essa idéia é boa demais para ser mexida. Vai ser exatamente assim como eu pensei, sem nenhuma complicação, nenhum detalhe, nada. Está perfeito." E estava mesmo.


:: História simples, experiência emocionante

A história começa com um herói sem nome, batizado apenas como "Wanderer" (andarilho), chegando em seu cavalo a uma linda e enorme terra desconhecida. Ele carrega em seu colo o corpo inerte e desacordado de uma menina de longos cabelos negros, a quem o garoto pretende devolver a vida. Ao atravessar uma belíssima e enorme ponte (um dos momentos mais graficamente impressionantes da minha história com os videogames), os três chegam a um templo, onde acontece um pequeno diálogo com uma voz retumbante que parece vir de dentro do próprio templo.

Aliás, é importante ressaltar que esse é um dos jogos mais simplistas desde a era do Atari. Todo o diálogo que acontece não é nem uma palavra além do estritamente necessário, e mesmo assim tudo é dito num tom poético e as falas do "deus" do templo são em linguagem antiga, bíblica, medieval. Sei lá. É lindo.

Nesse diálogo o garoto explica que a menina em questão (que também não recebe um nome) morreu de forma injusta, e que ele fará tudo o que for possível para restaurar a vida dela, pois acredita que a "voz do templo" tenha esse poder. A voz responde que isso pode ser possível, porém, há "um preço a se pagar" e "uma tarefa a se cumprir". A tarefa em questão é acordar e derrotar todos os dezesseis Colossi, criaturas magnifícas, tanto em tamanho quanto em complexidade e beleza. Assim, o jogo tem início.


:: A grama do vizinho nem sempre é a mais verde

A partir daí o mundo é seu. Você vai ficar boquiaberto com o mundo ao seu redor e com todos os seus detalhes, acidentes geográficos, colinas e despenhadeiros. Com cada árvore, com cada penhasco ou cachoeira. Tudo é deslumbrante. Tudo é impressionante. Não há inimigos menores para derrotar. Tudo que existe é você, seu fiel cavalo Agro e o mundo. Uma ou outra eventual águia ou um pequeno lagarto correndo por entre as pedras podem ser vistos, às vezes. Uma incrível sensação de liberdade toma conta do jogador, como se aquele mundo realmente existisse, como se a televisão fosse uma janela com vista para um ambiente fantástico, e real. Você poderia querer ficar dias apreciando a paisagem, e isso seria possível, mas você se lembra que tem um gigante a enfrentar.


:: À sombra do colosso

A luz do sol refletida pela espada sempre mostra a direção em que o próximo alvo se encontra. Indo nessa direção e desviando de quaisquer irregularidades do terreno, fatalmente se encontrá o colosso a ser derrubado. E o primeiro deles já chega para impressionar. Grande, lento e, de certa forma, vivo. A impressão que se tem ao chegar perto de um dos dezesseis grandes inimigos do jogo é exatamente essa: de que aquilo não é um modelo 3D animado e programado com códigos de computador que lhe conferem uma semi-inteligência artificial. A impressão que se tem é de que se está frente a frente com uma criatura viva, pulsante, que estava ali, à toa, sem fazer mal a ninguém, mas que por um motivo deve ser morta. Dá pena, gente. Muitas vezes dá pena. Eu, particularmente, nunca vi personagens com olhos tão sutilmente expressivos. Eles não têm sobrancelhas, tampouco pálpebras ou qualquer outra coisa ao redor dor olhos que pudesse lhes conferir emoções e expressões faciais. Mas mesmo assim é impossível não perceber algum tipo de sentimento naquele olhar. Seja de compaixão, de dúvida, de simples agressividade, mas todos eles têm sentimentos e, se você também os tiver, vai percebê-los.

A batalha consiste em achar o ponto vital da criatura, achar um meio de escalar até lá, se segurar firme enquanto o inimigo tenta com todas as forças lhe jogar longe e, por fim, cravar a espada sagrada nesse ponto (às vezes são mais de um no mesmo Colosso). Fazendo isso repetidas vezes o inimigo cairá no chão, sem vida. Seu espírito sairá do corpo do gigante, tomando conta então do corpo do herói, que aparece logo depois acordando no templo inicial (onde está a garota no altar), onde vai receber instruções, muitas vezes pouco reveladoras, para a luta contra o próximo Colosso.

Mas, verdade seja dita, às vezes nem dá vontade de lutar. Dá vontade de ficar correndo ao redor do colosso, observando seus movimentos, suas atitudes, suas expressões. Dá vontade de fazer com que ele tente te atacar, só pra ver o show de poeira, terra e pedras que voam do chão para todos os lados, a partir do ponto onde ele acertou. Dá vontade de subir nele só para ficar ouvindo as empolgantes músicas orquestradas que se alternam em cada uma das situações. Enfim, dá vontade de fazer o jogo durar para sempre.


:: Sinta

Faltam palavras para descrever esse jogo, e todas as que eu escrevi aqui estão desordenadas, pois é muito difícil analisar algo que deve ser sentido, e não entendido. É simplesmente a experiência mais gratificante que alguém pode ter segurando um controle de PS2. E, já que é impossível fugir do trocadilho, é um game colossal.

* * *

Mais Imagens:
(Clique para ampliar)














Ah, antes que eu me esqueça: todas as imagens desse post são realmente do jogo rodando, não de algum video, sequência em CG ou nada parecido. É tudo real.

29 de novembro de 2005

Surpresas, expectativas e som embolado


Por que raios a qualidade de som de festivais, em lugares abertos, só melhora na hora da última banda?

Nisso o
Claro que é rock não conseguiu se diferenciar de outros festivais novos ou velhos. Infelizmente. Penso como teria sido melhor o show do Sonic Youth se o som estivesse lindo como estava na hora do Nine Inch Nails.
E por falar em NIN que show foi aquele?
Visualmente, o palco
e a iluminação estavam perfeitos, o som também. Como se não bastasse Trent Reznor chega mandando Wish como um socão no queixo.
A banda teve tudo ao seu favor. Foi um puta show que também abriu meus olhos e ouvidos para um som que nunca dei muita bola e que daqui para frente com certeza vou prestar mais atenção.
Esse festival foi um dos que mais me surpreendeu. Minhas expectativas estavam todas sobre Iggy Pop e Sonic Youth, mas os shows de que mais gostei foram NIN e Flaming Lips ( e mais ainda do Flaming Lips). Gosto muito da Nação Zumbi, inclusive, foi ótimo entrar na Chácara do Jockey e vê-los no palco, mas fui ao CQÉR ver as atrações principais.


Logo depois da Nação, o Fantômas começou a tocar no palco 2. Não entendi nada. Esta hora estava procurando um lugar legal para ver o Flaming Lips. Sim, eu queria ver o show. E fiquei surpresa com a preocupação do Wayne Coyne para que tudo desse certo no show, fiquei alegre como uma criança ao ver os bichinhos de pelúcia, aquele solzinho fofo, os balões coloridos, o papel picado, o Wayne na bolha e a interação entre ele e o público. O repertório estava ótimo e incluiu dois covers improváveis,pelo menos para mim, Bohemian Rhapsody (Queen) e War Pigs (Black Sabbath) o mais bacana foi que
eu consegui ver o show inteiro do alto do meu 1,50 cm de altura. Isso é inédito. Normalmente, não vejo quase nada porque sempre entra alguém enorme na minha frente. Antes de começar o show até pensei que eu deveria fazer como a maioria das mulheres em shows e baladas de São Paulo: andar com aquelas botas plataforma de quase 20 cm, isso já me ajudaria bastante. Mas não precisei de plataforma, vi tudo: os bichinhos, o telão sincronizado com as músicas (viva Kraftwerk que faz isso há tempos e é maravilhoso!) Só me arrependo de não ter tentado ver tudo lá da frente, soube que estava tranqüilo e tinha uma galera bacana vendo o show.
Resultado: estou apaixonada por Flaming Lips. Nunca fui grande conhecedora e tampuco fã.
Se voltarem, com certeza, serei uma das primeiras a comprar o ingresso. Ah, e salve, salve Brian Molko que foi quem sugeriu a banda para tocar no Claro e ainda mandou uma boa definição do que é ver um show do Flaming Lips: é como ir a uma festa de criança viajando de ácido.

Depois de toda a fofura psicodélica do FL, a crueza do tiozinho mais inteiro, mais visceral e mais rock´n roll de todos: Iggy Pop.
E se no show anterior consegui ver tudo, nesse comecei a desejar a plataforma de novo. Vi o Iggy de muito longe, ele era quase que uma miniatura no palco. Uma miniatura que dava vários pulos usava calça justa e que no fim do show estava quase com a bunda de fora depois de ter caído nos braços do povo, literalmente.
Curti muito ouvir No Fun, I wanna be your dog e ouvi-lo reclamar, puto, após a penúltima música do show. Mas não me envolvi muito. Não sei explicar por quê.


Na hora do Sonic Youth, duas coisas em comum com o show do Iggy Pop: não me envolvi tanto e continuei pensando na plataforma de quase 20 cm que me ajudaria enxergar melhor o casal cabeludo Thurston Moore e Kim Gordon (Ela é fantástica! Quando eu estava aprendendo a tocar baixo queria ser ela quando eu crescesse). Nessa hora a decepção com o som do festival cresceu. Quase não dava para ouvir os agudos, o som estava abafado as loucuras guitarrísticas de Thurston Moore e Lee Arnaldo não ficaram nítidas como eles e nós que estávamos ouvindo merecíamos.
Por isso, sou obrigada a concordar com um amigo que diz que além de pagarmos caro nos contentamos com um som ruim só porque, dificilmente, veríamos bandas bacanas como essas aqui de novo.

Som meia boca na maior parte dos shows, ingresso caro, filas enormes para a cerveja noves fora line up ousado, pontualidade, boa quantidade de banheiros, boa localização dos palcos. O Claro que é Rock teve saldo positivo, mas precisa ficar mais atento com a qualidade do som, afinal manter essa tradição ruim
é sacanagem com o público e com as bandas também. O único festival que vi na vida que manteve som honesto da primeira a última banda foi o Tim Festival 2004, mas foi em lugar fechado. Já é hora dessa história mudar. Que tudo melhore ano que vem e que as bandas sejam tão bacanas como as da primeira edição.

O próximo post vem com o último grande show que verei este ano, o Pearl Jam que traz o Mudhoney abrindo todos os shows da turnê brasileira (corro o grande risco de gostar mais da banda de abertura que a atração principal, semana que vem eu conto).

28 de novembro de 2005

Saiu o CD novo do Pettit Project!!!

Como assim, "não conheço"? É uma banda legal! E é do Canadá, que nem esse tal de Arcade Fire aí que eu tenho certeza que tu ouve!

Eles jogam PlayStation e falam de amor do jeito mais nerd possível.

Na verdade eles me conquistaram quando compararam "a menina que não deu atenção ao menino" a vilões de videogame, como Wario ou Dr. Willy ("You've gotta be an enemy like Wario or Doctor Willy") na música "99 Lives", do primeiro CD deles ("Cheerockarcy", 2004). Essa, aliás, é a música mais nerd do mundo, na minha humilde opinião. Tem até solinho de sintetizador imitando musiquinha do Mario. Nem Blind Guardian supera.

O estilo deles é PowerPop. Tem muito vocalzinho feminino, muito barulhinho maluco de sintetizador e muuuuuuita guitarra pesada pra equilibrar as coisas. Mas você não precisa se preocupar com isso se tiver o mínimo de sensibilidade pra entender que amar é mais difícil do que parece, principalmente pra quem é nerd. Se você ler a letra de "Simple Song, Simple Plan" (essa não entrou em nenhum CD) e não se emocionar com a historinha, você com certeza é o tipo de pessoa que encontra um cachorro na rua e dá um belo chutão na barriga. Seu insensível.

Mas, enfim. Eles acabaram de lançar CD novo ("6 Week Summer Vacation in Hell") e o disquinho já está à venda nesse endereço. Quinze doletas.

Mas é claro que você pode procurar o CD na Internet. Afinal, o importante é ouvir e gostar, né?

PS.: Alguém aí falou em Kuat de Laranja?

16 de novembro de 2005

We Want The Airwaves

Mr.Programmer I got my hammer and I'm gonna smash my smash my radio!Fazia tempo que não se via tantos shows de qualidade num mesmo ano em solo paulista. De medalhões como Pearl Jam e Strokes, divindades como o MC5 e Iggy Pop, metaleiros das antigas como o Judas Priest e Whitesnake, e até os obscuros e sensacionais King Khan & BBQ. Os roqueiros da cidade de São Paulo tiveram um ano cheio de escolhas, como há muito tempo não se via.

E eis que, contradizendo toda esta enchurrada rock'n'roll na cidade, surge a notícia de que o dial 107.3 da rádio mais roqueira da cidade está para ser comprada e substituída por uma programação voltada 24 horas para o esporte. A idéia do Grupo Bandeirante (que faz parte de um conglomerado já detentor de rádios como a 89fm, Alpha e Nativa) era tirar a Brasil 2000 do ar e colocar em seu lugar a Rádio Band Sports.

Voltando dois anos atrás, com Kid Vinil tomando as rédeas artísticas da rádio, escutar a Brasil 2000 era um prazer. Por um curto período, a Brasil 2000 voltou a ser uma rádio voltada para um público mais segmentado, com cara de college radio, tocando músicas diferenciadas, sendo a única rádio a abrir espaço para o som independente. A Brasil 2000 nos fez acreditar que existia vida inteligente no rádio. Mas logo no fim de 2004 as coisas começaram a mudar. A entrada de músicas comerciais, a saída de programas comandados pelo Kid Vinil (o principal mentor da mudança para um seguimento menos comercial), a entrada de quatro horas diárias de notícias produzidas pela Band News, a saída do programa Garagem (agora no UOL) em 2005, mostraram ao ouvinte mais antenado que alguma coisa já estava muito podre no reino da Dinamarca.

Os boatos sobre a venda da Brasil 2000 diziam que a rádio, já em Dezembro, deixaria de existir. Entretanto, alguns fatores impedem que esta venda seja concretizada. Por ser uma emissora educativa, uma rádio mantida pela Faculdade Anhembi Morumbi, ela não pode ser vendida. Portanto, acredito eu, a novelinha da venda da rádio ainda vai se desenrolar por algum tempo. Tanto que já tem gente dizendo que a rádio, na verdade, vai continuar com sua programação atual, apresentando apenas algumas mudanças.

Bastidores, dinheiro e luta pela audiência à parte, eu ando cada vez mais convencido de que se você quiser ouvir uma rádio que toque um som que é a sua cara, a internet é o caminho. Não estou falando de abaixar mp3 pelo Soulseek, mas sim ouvir as rádios online como a Woxy e a Indie 103.1 (confira os links aqui mesmo no Indigesto). A americana Woxy, por exemplo, sabendo da existencia de um público cativo aqui do Brasil, começou há algum tempo a colocar no ar vinhetas em português. O único programa que prestava no rádio paulista, o Garagem, agora está no UOL, sendo transmitido online e, o que é melhor, o programa agora é filmado.

Claro que para ter acesso a isto é preciso ter um micro e uma boa conexão, mas este é o preço a se pagar se o desejo for escutar algo diferenciado e bem distante das notícias, das músicas populares e dos jabás.

15 de novembro de 2005

"Como foi o TIM Festival em São Paulo?"

arcade fire no rioTenho de voltar a postar alguma coisa antes do Indigesto ficar famoso e começar a faturar alto. Do jeito que a coisa está, a Cátia vai poder reclamar de uma porcentagem maior nos lucros vindouros. Já com a porcentagem do Fábio não me preocupo muito, é só pagar um Kuat com laranja que é mais do que ele merece. Brincadeirinhas e atrasos à parte, o Tim Festival 2005 com os Strokes já foi e, antes de postar algo sobre o Claro que é Roque, quero deixar registrado algumas coisinhas sobre minha passagem pelo Tim. Se quiser pular o blá-blá-blá, no final do post coloquei as notas dos shows, de zero a 10.

Chegamos ao local do festival com a idéia de explorar as "especialidades" da redondeza. Após um de nós três saborear um misto quente suspeito, um outro uma latinha de cerveja quente por R$2,50 e o terceiro ficar apenas divagando em tomar uma dose de um bom whisky, fomos para a enorme fila ouvir o final da apresentação da Nação Zumbi. Escutei as últimas músicas do lado de fora, na fila para entrar, orientado por vendedores de capa de chuva que a vendiam por R$3 no final da fila e por R$10 no início da fila. Minhas dúvidas quanto ao local ser ou não um lugar aberto acabaram ali. Pensei muito se não valeria a pena levar uma capa."Dane-se", pensei, se minha amiga não estava nem aí pra aguaceira que poderia vir a cair, não sou eu que vou demonstrar toda a fraqueza de um homem precavido.

Entrando no local, teve início o show da inglesa MIA. Não fazia idéia do que esperar até começar a ouvir uma batida eletrônica que me fez lembrar muito a batida do funk carioca. Havia algumas percussões tribais, mas que pareciam estar ali apenas como figurantes. Todas as músicas eram ritmadas pelo "batidão". O som era todo vindo de um DJ e de sua mesa, enquanto MIA cantava seu rap e dançava uma coreografia que, pra mim, era inútil, naquele palco gigantesco. Não entendi nada e acabei gritando com o dedo do meio estendido : "Eu quero é ROQUE!"

Fora MIA que aí vem o Arcade Fire. Ajudado pela amiga fanática por Arcade, fomos abrindo espaço entre a multidão, chegando quase a encostar na grade.
Abro aqui um parenteses. A amiga encostou-se à grade, viu a turminha VIP que estava ali e nos deixou revoltados ao contar que havia um espaço enorme na frente do palco destinado aos Vips e, adivinhe, poucos "vips". Só no Brasil que organizadores vendem 30.000 ingressos para a pista custando R$120 e não dá a chance para estes, que são os que pagam todo o Festival, chegar perto do palco, apenas para agradar alguns 100 mais afortunados. Fecha o parenteses.
Wake Up! Essa foi a música que deu início ao fantástico show da banda canadense Arcade Fire, uma das bandas mais originais a surgir nos últimos anos. Nove ou oito integrantes vestidos de preto, instrumentos de cordas, de percussão, acordeão, vocais, ótimas músicas, simpatia e muita energia. Suas músicas, de camadas melancólicas, alegres, dançantes, enérgicas, emotivas, fazem com que a banda funcione muito bem ao vivo. O Arcade Fire nos da aquela chance de se surpreender com a performance enérgica de seus integrantes, do tesão que eles têm em estarem ali tocando, e também nos deixa livres para dançar muito, esquecendo a gostosa bagunça que acontece no palco. Rebellion (Lies) foi a canção escolhida para fechar o show, um dos melhores já visto por este que vos escreve. A ótima apresentação da banda foi confirmada por pessoas que estavam ali apenas para ver os Strokes e que acabaram por se surpreender com o Arcade Fire.

O show do Kings Of Leon serviu como uma pausa para mais umas cervejas, umas mijadas e para sentar no chão e conversar, à espera dos Strokes.

94,7% das pessoas que ali estavam foram para ver os Strokes, portanto chegar na linha de frente foi bem mais difícil desta vez. Os inimigos eram muitos, todos querendo um pedaçinho de terra que fosse. E lá vem os rapazes, e lá vêm os gritos. Histéricos. De moças e rapazes. Gritos que me fizeram lembrar aqueles shows dos Beatles onde não se houve a banda tocando e sim apenas os gritos que parecem estar saindo por um orifício bem menor que a boca. Um cara do meu lado não parava de gritar a plenos pulmões.
Abrindo mais um parenteses. O problema que antes eu apenas suspeitava agora ficou mais cristalino, o som que vinha do palco estava muito baixo, bem longe do que se pode esperar de um festival para trinta mil pessoas. Parenteses fechado.
A banda entrou no palco e, se ali no palco estivesse um telão em vez da banda tocando, a diferença seria mínima. Eu senti falta daquele algo mais que nos faz estar ali pra ver uma banda ao vivo. Os Strokes não tem este algo a mais. O que ajuda os Strokes é a quantidade de músicas boas e de hits. E os fãns. Gosto de seus três discos de estúdio. Discos com melodias que me faz lembrar o pós-punk de bandas como Television e a simplicidade cheia de energia de Lou Reed, tudo muito bem distribuído em um som próprio. Eu gostaria de ter visto um pouco desta energia, que funciona tão bem nos discos, ser extrapolada no palco. Talvez com um peso maior, com mais pegada, não sei dizer. É o que sempre espero de uma banda com influências tão próximas do punk rock. O que importa mesmo é que o show pragmático dos Strokes funcionou muito bem para a grande maioria dos presentes, que estavam ali apenas para ouvirem os Strokes e todos os seus hits.

A capa de chuva não fez falta alguma, ainda bem.

Notas:
Nação Zumbi: não se aplica
Mia: 0.3
Arcade Fire: 9.6
Kings Of Leon: não se aplica
Strokes: 6.9